Desafio um deus tardo
que te mostra e te esconde
como jogo de vagas submersas
ao aproximar do som de teus sapatos
pisando cuidado e aéreo ferro
em tua pupila azul doce-feroz
– concha aturdida que se anuncia
no último cristal da tarde.
Mariscos que se incrustam no teu flanco
e te ferem sem que alguém os possa ver
são os sinais da violência interna,
a marca do fogo, fera-caramujo
impassível de serena aparência.
Imaginado
eras único ser que se percorre
entre o sal e duas ondas,
então leio teus versos como leio a água
e vejo claro o cristal na tarde
em que te exaures.
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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Pedido (Olga Savary - 1933)
Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
– um no cérebro outro no peito –
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha – lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.
Meu velho poeta canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
– um no cérebro outro no peito –
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha – lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.
Meu velho poeta canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.
domingo, 29 de julho de 2012
Introdução a repertório selvagem (Olga Savary - 1933)
Nada mais rigoroso que a paixão
pois, obstinada como é, busca-se
na busca do absoluto.
A superficialidade é que não conhece
o rigor e o teme. É então que estou
dentro da vida como em meus livros.
Daí, com uma tenaz e exacerbada,
com uma premeditada tônica
de crueldade e ironia no coração,
leitor, não estranhes a repetição:
propositadamente obsessivos
são os poemas- como a paixão.
pois, obstinada como é, busca-se
na busca do absoluto.
A superficialidade é que não conhece
o rigor e o teme. É então que estou
dentro da vida como em meus livros.
Daí, com uma tenaz e exacerbada,
com uma premeditada tônica
de crueldade e ironia no coração,
leitor, não estranhes a repetição:
propositadamente obsessivos
são os poemas- como a paixão.
Ábaco (Olga Savary - 1933)
Lembro-me como se fosse hoje:
no mato sem cachorro,
mesmo sem cão, não caço com gato
mas tiro meu cavalinho da chuva.
Tarde aprendi que mais vale
um pássaro na mão do que dois voando
e que uma andorinha só não faz verão.
Apanhando como boi ladrão,
o homem é o lobo do homem,
– Ah King Kong,
cada macaco no seu galho.
Sem jeito mandou lembranças.
Boa romaria faz
quem em sua casa fica em paz.
Esperarei sentada.
Vivaldi, vida vida,
Noves fora: nada.
no mato sem cachorro,
mesmo sem cão, não caço com gato
mas tiro meu cavalinho da chuva.
Tarde aprendi que mais vale
um pássaro na mão do que dois voando
e que uma andorinha só não faz verão.
Apanhando como boi ladrão,
o homem é o lobo do homem,
– Ah King Kong,
cada macaco no seu galho.
Sem jeito mandou lembranças.
Boa romaria faz
quem em sua casa fica em paz.
Esperarei sentada.
Vivaldi, vida vida,
Noves fora: nada.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Fui eu (Olga Savary - 1933)
A face do poeta
Fui eu, sou a face pálida
e ocre, o firme olhar fixo
do olho à espreita, olho que vê,
duro como pedra, mole como dúvida,
certa compaixão, algum espanto,
olhar que se expõe e se revela,
pulsar de coração no crânio lívido
à espera da harmonia universal,
tentativa de semear eternidades
no que em meio à solidão do homem
e na vida é coisa breve e fluida,
esperança de melhores dias vindos
de deuses que aprimorem os seres
sonhando uma melhor humanidade.
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