O jogo começava antes do jogo,
quando eles desciam pelas ruas,
mudando a fisionomia do bairro.
Em bandos, a caminho do estádio,
embolados numa babel de homens,
de todas as cores, de todos os lados.
Uma multidão de cabeças, bandeiras,
rádios de pilha e cantos de guerra.
Estádio encravado na vulva da terra.
Dava qualquer coisa para ver o jogo.
Ir de arquibancada, numerada, geral,
cobertura, barranco -torcer é igual.
O jogo transcendia o próprio jogo:
despacho ardendo na encruzilhada,
rojão, batuque, juiz, vaia pesada!
E dramático era ouvir conjugado,
o silêncio distorcido do adversário,
dentro do grito de gol ressoletrado.
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sexta-feira, 10 de agosto de 2012
domingo, 5 de agosto de 2012
Homem rindo (Augusto Massi - 1959)
Para José Paulo Paes
A roda de amigos
sacudida por uma
rajada de risos.
Me concentro num
homem tímido que
sorri por dentro.
Deslocado na roda
rapidamente corta
o riso pela raiz.
Mas o riso retorna.
Coceira furiosa nos
orifícios do nariz.
Bebe graça no gargalo
rola rala racha o bico
ri até ficar sem graça.
A rodada de amigos
explode às gargalhadas:
o tímido é sua cachaça.
A roda de amigos
sacudida por uma
rajada de risos.
Me concentro num
homem tímido que
sorri por dentro.
Deslocado na roda
rapidamente corta
o riso pela raiz.
Mas o riso retorna.
Coceira furiosa nos
orifícios do nariz.
Bebe graça no gargalo
rola rala racha o bico
ri até ficar sem graça.
A rodada de amigos
explode às gargalhadas:
o tímido é sua cachaça.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Cemitério do Araçá (Augusto Massi - 1959)
Quando ainda era menino,
voltava calado para casa,
interrogava teu muro alto.
Eras o melhor vizinho.
Habituado a jogar futebol
na sinuosa rua dos fundos,
estranhava que as bolas
não voltassem do teu mundo.
Você resistiu ao cerco
da cidade que cresceu
(eu também cresci)
sempre à tua volta.
Repisando nosso passado,
hoje, finalmente, te visito.
Busco meu pai enterrado
dentro do teu labirinto.
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