Uma noite adentrei com fogo e vinho
no centro de uma festa sem palavras,
e aquilo que eu trouxe, fui roubado,
e bêbados se queimaram em fogo e vinho.
E voltei como quem perde chão e rastro
(parecia que pisava alguns venenos
que nasciam por ali em folhas grandes)
e cheguei assim perdido do que eu era.
Outra noite voltei com fogo e vinho,
da mesma cor e álcool rubro derramados,
mas na festa os homens murmuravam, e nomes
confusos me invadiram: fui roubado.
E adentrei em casa sem mais nada,
braços longos e vazios de amor e dedos
e percorri-me sem achar qualquer consolo,
e assim deitei o medo que trazia já com sono.
Mais uma noite fui com fogo e vinho,
iguais em calor e embriaguez,
mas os homens já falavam largos versos,
eram claros e disseram: - Basta disso.
E cheguei em casa calmo e agradecido
ao fogo e vinho quentes que eu tinha,
pois dei a fala aos homens, que me odeiam
por deixá-los saber que estão vivos.
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Viajar (Felipe Fortuna - 1963)
Viajar todas as vezes
que o corpo precisar
(fabricar a viagem de alguma substância
da glândula).
As lágrimas são uma necessidade,
assim como o suor:
que a viagem também
transforme seu rosto,
regule a temperatura do corpo.
Depois, ir.
Ir suspenso, guiado por tudo
que produzir
os verbos “fazer chegar”.
Muitas curvas, montanhas,
encontrar com surpresa “córrego,
atalho”, tudo levando à mesma viagem
que já deixa memória,
mas está por começar?
Viagem por onde só a família foi,
viagem que tem animais, portas,
nomes de lugares.
E a persistência
enfática:
continuar. Febre, sede.
Depois, voltar?
Induzir a turva reação
de cores prolongadas, e partir
para outro caminho,
à solta.
A viagem repete o viajante,
e ele não nota.
que o corpo precisar
(fabricar a viagem de alguma substância
da glândula).
As lágrimas são uma necessidade,
assim como o suor:
que a viagem também
transforme seu rosto,
regule a temperatura do corpo.
Depois, ir.
Ir suspenso, guiado por tudo
que produzir
os verbos “fazer chegar”.
Muitas curvas, montanhas,
encontrar com surpresa “córrego,
atalho”, tudo levando à mesma viagem
que já deixa memória,
mas está por começar?
Viagem por onde só a família foi,
viagem que tem animais, portas,
nomes de lugares.
E a persistência
enfática:
continuar. Febre, sede.
Depois, voltar?
Induzir a turva reação
de cores prolongadas, e partir
para outro caminho,
à solta.
A viagem repete o viajante,
e ele não nota.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Em seu lugar (Felipe Fortuna - 1963)
Arrumo livros
como lembro os rostos,
de memória. Limpo livros
a me esgueirar
por estantes e frestas,
esgrima. Depois
volto a flagrar as lombadas
queimadas de luz
e de gordura dos dedos
(o corpo continua a penetrar
cada leitura).
Ali estive, aquele ali fui eu,
aqui me reencontro,
estranho antes e depois.
Ninguém fala o título:
ele mesmo
soletra a sua inclusão
e se perfila, agora convocado.
Daqui observo, perto e de rapina,
o livro que li e volta para a fila:
sua lombada erguida frente
à dúvida, que não termina.
como lembro os rostos,
de memória. Limpo livros
a me esgueirar
por estantes e frestas,
esgrima. Depois
volto a flagrar as lombadas
queimadas de luz
e de gordura dos dedos
(o corpo continua a penetrar
cada leitura).
Ali estive, aquele ali fui eu,
aqui me reencontro,
estranho antes e depois.
Ninguém fala o título:
ele mesmo
soletra a sua inclusão
e se perfila, agora convocado.
Daqui observo, perto e de rapina,
o livro que li e volta para a fila:
sua lombada erguida frente
à dúvida, que não termina.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Quase um perfeccionista (Felipe Fortuna - 1963)
Ao andar pelas ruas
e palpitar à luz do dia
(como quem não consegue
chegar à própria casa, dizer
seu nome ao guarda, encontrar amigos
na cidade em que nasceu),
ele insiste e continua.
Sua mão de pele esparsa se contrai,
cada veia atinge em cheio
as suas expressões. É forte,
dizem os médicos, a sua
compleição. E a alma é robusta
como um lilás no meio do lago.
Ao viajar, transporta poucas roupas
dobradas com a emoção que insiste.
Ainda quer superar uma doença
cujo nome esqueceu
e um jardim em que não sabe pisar.
Quando passeia, as crianças, as mulheres
também, os pais e maridos reconhecem
que por ali vai uma pessoa comum e virtuosa,
quase um perfeccionista.
e palpitar à luz do dia
(como quem não consegue
chegar à própria casa, dizer
seu nome ao guarda, encontrar amigos
na cidade em que nasceu),
ele insiste e continua.
Sua mão de pele esparsa se contrai,
cada veia atinge em cheio
as suas expressões. É forte,
dizem os médicos, a sua
compleição. E a alma é robusta
como um lilás no meio do lago.
Ao viajar, transporta poucas roupas
dobradas com a emoção que insiste.
Ainda quer superar uma doença
cujo nome esqueceu
e um jardim em que não sabe pisar.
Quando passeia, as crianças, as mulheres
também, os pais e maridos reconhecem
que por ali vai uma pessoa comum e virtuosa,
quase um perfeccionista.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Das impurezas (Felipe Fortuna - 1963)
Misteriosa
também é
a cera de meus ouvidos
(e tudo o que escapa de mim:
meu vácuo, meus excessos, minha urina).
É o que fabrico de coisas esquecidas
que se misturam no sonho
sem alimento de luz.
Misterioso o suor, misterioso o esperma,
todas as heranças
que dedico à vida por cansaço,
por calor e calafrio.
O corpo se faz sozinho, oferta
nua e ruminada,
aquecido pelo acaso,
derramando verniz pelos poros que me informam
do mundo e do contágio.
Excrementos, unhas, cabelos:
me fazem mais vivo, mais morto ou doceamargo
ou mais resignado?
Já não quero perder a dor nenhuma.
O que me resta é partilhar a perda
com outro corpo que me consuma
sem direção e sem destino
- até que eu perca o suave grito,
até que eu perca o medo.
a cera de meus ouvidos
(e tudo o que escapa de mim:
meu vácuo, meus excessos, minha urina).
É o que fabrico de coisas esquecidas
que se misturam no sonho
sem alimento de luz.
Misterioso o suor, misterioso o esperma,
todas as heranças
que dedico à vida por cansaço,
por calor e calafrio.
O corpo se faz sozinho, oferta
nua e ruminada,
aquecido pelo acaso,
derramando verniz pelos poros que me informam
do mundo e do contágio.
Excrementos, unhas, cabelos:
me fazem mais vivo, mais morto ou doceamargo
ou mais resignado?
Já não quero perder a dor nenhuma.
O que me resta é partilhar a perda
com outro corpo que me consuma
sem direção e sem destino
- até que eu perca o suave grito,
até que eu perca o medo.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Gritos e Sussurros (Felipe Fortuna - 1963)
Alguma coisa em mim é a tua dor.
Com ela eu adoeço; mas não dou
meu corpo à tua dor, senão me perco.
Senão me esqueço de tocá-lo, assim
como a flor sobre o muro esquecido.
E me calo: a dor é o silêncio e o muro.
A dor é o mundo? Mas não a sinto.
E, armado até os dentes,
mordo o mundo, mordo o corpo
por pertencer à minha vida, por estar junto
à minha dor, à dor de todo mundo.
Venha então o meu corpo ou o teu corpo,
pois tanto faz, se a dor é a mesma, gritar sozinho.
Perguntas ao silêncio (Felipe Fortuna - 1963)
O silêncio tem rotação?
E é rotação que se perceba,
ou mera pulsação da seda
que nenhum corpo quer tecer?
Como pode o silêncio ter,
por vezes, o calor da reza
- que, morno, pouco a pouco embaça
os vidros frágeis de quem fala?
Pois - o silêncio é ter certeza?
É prisma por onde uma luz
desnuda sem qualquer pudor
o segredo de fazer sombras?
E que silêncio é mais exato?
O resignado, de quem morre,
o silêncio de quem respira,
ou aquele que, não desfeito,
torna suspeito o mundo inteiro?
E é rotação que se perceba,
ou mera pulsação da seda
que nenhum corpo quer tecer?
Como pode o silêncio ter,
por vezes, o calor da reza
- que, morno, pouco a pouco embaça
os vidros frágeis de quem fala?
Pois - o silêncio é ter certeza?
É prisma por onde uma luz
desnuda sem qualquer pudor
o segredo de fazer sombras?
E que silêncio é mais exato?
O resignado, de quem morre,
o silêncio de quem respira,
ou aquele que, não desfeito,
torna suspeito o mundo inteiro?
sábado, 5 de novembro de 2011
Anatomia (Felipe Fortuna - 1963)
Um poema é uma guerra: nele e nela
se desintegram a palavra e a vida
e o que resta é perda que ressuscita:
ler um poema de certo modo o mata,
pois morre o que não se pensou ao ler,
embora a leitura aos poucos esclareça
o que se pensou jamais se fosse ler.
Poema é duelo plural e infinito:
é, acrobática, sobre o papel a escrita
ao mesmo tempo enigma, estigma, ígnea.
Ler o poema, mas não resolvê-lo:
isso acontece há muito tempo,
e somos nós que estamos lá dentro.
O poema nos faz e desfaz, a guerra também,
e é com palavra e arma que sabemos
o quanto nos resta de sonho e de renascimento.
se desintegram a palavra e a vida
e o que resta é perda que ressuscita:
ler um poema de certo modo o mata,
pois morre o que não se pensou ao ler,
embora a leitura aos poucos esclareça
o que se pensou jamais se fosse ler.
Poema é duelo plural e infinito:
é, acrobática, sobre o papel a escrita
ao mesmo tempo enigma, estigma, ígnea.
Ler o poema, mas não resolvê-lo:
isso acontece há muito tempo,
e somos nós que estamos lá dentro.
O poema nos faz e desfaz, a guerra também,
e é com palavra e arma que sabemos
o quanto nos resta de sonho e de renascimento.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Balada para um amigo (Felipe Fortuna - 1963)
Essa aurora é a minha vez.
É a voz que me faltava e me traduzia
um homem que nasceu.
Se penso em ti, logo me vejo sozinho,
e outro dia amei que nem pensava.
Abri flores - agora estarão mortas.
Abri fendas - ainda estarão nas rochas.
Bebi meu último copo com o amigo.
Disse-me tantas verdades, o amigo,
que preferi partir sozinho à casa sóbria.
Lembro-me só, do pouco que falei,
que choramos juntos a música besta
e o assassinato de um chofer de táxi.
E pela manhã, quando as estudantes
desfilam seios e saias plissadas,
parei perto das estátuas, olhei pombos atônitos,
e não trazia uma frase
de improviso ou ensaiada
que dissolvesse a névoa, que revelasse ao amigo
por que naquele dia fui tão triste,
recitei tanta ventania,
e dei-lhe um abraço de monstro
e não lhe disse: - Acordei.
Meu amigo, se estiveres
lendo-me agora
ou escutando rádio,
se estiveres bem em tua cama e almofada,
me diga se o que houve
entre minha e tua palavra
foi vida, que tanto escorria,
ou foi a morte que nos encontrava.
É a voz que me faltava e me traduzia
um homem que nasceu.
Se penso em ti, logo me vejo sozinho,
e outro dia amei que nem pensava.
Abri flores - agora estarão mortas.
Abri fendas - ainda estarão nas rochas.
Bebi meu último copo com o amigo.
Disse-me tantas verdades, o amigo,
que preferi partir sozinho à casa sóbria.
Lembro-me só, do pouco que falei,
que choramos juntos a música besta
e o assassinato de um chofer de táxi.
E pela manhã, quando as estudantes
desfilam seios e saias plissadas,
parei perto das estátuas, olhei pombos atônitos,
e não trazia uma frase
de improviso ou ensaiada
que dissolvesse a névoa, que revelasse ao amigo
por que naquele dia fui tão triste,
recitei tanta ventania,
e dei-lhe um abraço de monstro
e não lhe disse: - Acordei.
Meu amigo, se estiveres
lendo-me agora
ou escutando rádio,
se estiveres bem em tua cama e almofada,
me diga se o que houve
entre minha e tua palavra
foi vida, que tanto escorria,
ou foi a morte que nos encontrava.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Deus (Felipe Fortuna - 1963)
Vamos imaginá-lo na amplitude do tempo:
traremos até aqui
a sua rotação.
Vamos imaginá-lo
lógico e indevassável,
distante, indeterminado:
sua cor, a cor de um pulo.
Vamos imaginá-lo
doença, catástrofe, bomba:
sua presença terrível
ao crepitar num velório.
Vamos imaginá-lo
nas esquecidas gravuras,
em longínquas aquarelas:
não o corpo, o gesto.
Vamos imaginá-lo um ímã
cuja atração é nosso choro
e nos passos que deixam marcas
na pedra de sua história.
Vamos imaginá-lo
de repente
sobre um cavalo
de repente.
traremos até aqui
a sua rotação.
Vamos imaginá-lo
lógico e indevassável,
distante, indeterminado:
sua cor, a cor de um pulo.
Vamos imaginá-lo
doença, catástrofe, bomba:
sua presença terrível
ao crepitar num velório.
Vamos imaginá-lo
nas esquecidas gravuras,
em longínquas aquarelas:
não o corpo, o gesto.
Vamos imaginá-lo um ímã
cuja atração é nosso choro
e nos passos que deixam marcas
na pedra de sua história.
Vamos imaginá-lo
de repente
sobre um cavalo
de repente.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Peles (Felipe Fortuna - 1963)
É sempre assim tua carícia:
dedos de abertas superfícies;
corpo de pele que respira;
a palavra suor: a vida.
Carícia de metal-pelúcia,
duas placas plangentes que
patinam sobre as asperezas
quando as asperezas se deitam.
Carícia que arranha a loucura
Com as unhas; com saudade; arde.
Só nasci para morrer nisso;
palavra alguma chega perto.
Feita de carne e de silêncio,
de ritmo lento e de segredo,
sinto em ferro em brasa o braço a
perna o cabelo desfazendo
O que a carícia vai fazendo.
dedos de abertas superfícies;
corpo de pele que respira;
a palavra suor: a vida.
Carícia de metal-pelúcia,
duas placas plangentes que
patinam sobre as asperezas
quando as asperezas se deitam.
Carícia que arranha a loucura
Com as unhas; com saudade; arde.
Só nasci para morrer nisso;
palavra alguma chega perto.
Feita de carne e de silêncio,
de ritmo lento e de segredo,
sinto em ferro em brasa o braço a
perna o cabelo desfazendo
O que a carícia vai fazendo.
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