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segunda-feira, 30 de junho de 2014

Minha vida é isso (Nicolas Behr - 1958)

meu filho pequeno, o Klaus,
pediu chupeta e disse
- a seu modo - (e eu entendi)
que ia dormir

pegou seu travesseirinho rosa
na sala e o pano branco no chão
- a babu - e dobrou-se sobre a cama

esse dias, já um pouco mais
crescido, perguntou:
qual a coisa maior, mais grande
do mundo? falei de edifícios,
baleias, sequóias, e ele:
- errou, é o amor!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Receita (Nicolas Behr - 1958)

Ingredientes

dois conflitos de gerações
quatro esperanças perdidas
três litros de sangue fervido
cinco sonhos eróticos
duas canções dos beatles


Modo de Preparar

dissolva os sonhos eróticos
nos três litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração

leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos
de gerações às esperanças perdidas

corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os
sonhos eróticos mas desta vez
deixe ferver um pouco mais e
mexa até dissolver

parte do sangue pode ser
substituído por suco de groselha
mas os resultados não serão
os mesmos

sirva o poema simples
ou com ilusões

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Poema anti-ajuda (Nicolas Behr - 1958)

felizes os fracos de espírito
pois estes têm gurus
felizes os que ainda botam fé
no ser humano
felizes os que sabem ler
e têm algo pra comer todos os dias
felizes os que criam o inferno
para depois prometer o paraíso
felizes os indiferentes, que não se
comovem com nada e sofrem menos
felizes os que mentem para si mesmos e
acreditam piamente nisso
felizes os infelizes, pois estes são os
verdadeiros iluminados
felizes os que nunca choram e, portanto,
não passam vergonha
felizes os que têm autoconfiança,
autoestima, automóvel
felizes os amigos dos poderosos,
que tudo querem, que tudo podem
felizes os que acreditam no amor de Cristo
pois estes não têm mais salvação
felizes os andarilhos, os indecisos, os
confusos, os sem-rumo-na-vida
felizes os que choram com facilidade pois
estes estão sempre reciclando
a água parada dos seus olhos, fazendo
chover nos seus corações
felizes os piegas, os românticos,
ultrapassados, bregas, os que falam de
amor sem medo do ridículo, nem que seja
pra faturar uma boa grana naquela
música que vive tocando no rádio e o
povão adora

felizes os que escrevem livors de auto-
ajuda e ganham muito dinheiro, muito dinheiro, que
é o que realmente importa, que é o que
realmente interessa

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Saudades de Braxília (Nicolas Behr - 1958)

soltar pipa no eixão
nadar e pescar no paranoá
comer pastel de queijo na rodoviária
estacionar no setor comercial sul
voltar da festa a pé, altas horas
catar gabiroba perto da catedral
namorar embaixo do bloco
cruzar a L2 de patins e a W3 de skate
pegar um grande circular e circular
de mãos dadas com o banco
ver estrelas, muitas estrelas
pescar no riacho fundo,
que hoje atravesso a pé

erick volta do parquinho com semente de
leucena na mão e pergunta: são essas as
sementes que você colocou na minha

sábado, 2 de março de 2013

Cometa poesia (Nicolas Behr - 1958)

era noite de julho de 1967

mamãe nos acordou de madrugada
para vermos o cometa ikeia-seki
(ela sabia que nós
nunca o esqueceríamos)

o cometa seguiu seu curso
nós voltamos para a cama

caixeiro-viajante do céu,
o cometa aparece e desaparece

o cometa volta
a infância não

sexta-feira, 1 de março de 2013

Brasília enigmática (Nicolas Behr - 1958)

brasília, faltam exatos 3.232 dias
para o nosso acerto de contas

me deves um poema
te dou um olhar terno

na beira do paranoá
pego um pedaço de pau
entre um pneu velho
e um peixe morto
(uma garça
por testemunha)

não me reconheces
não te reconheço

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Das vantagens de ser confuso (Nicolas Behr - 1958)

olhar e ver tudo torto, errado
das vantagens de ser incoerente
demente, temente, tenente, patente
das vantagens de ser repetititititivo
das vantagens de ser livre, foda-se!
das vantagens de se fingir de morto
qual peixe na feira, olho aberto, parado
das vantagens de ser totalmente louco,
pirado, sem nenhum compromisso com
nada, escravo da mente, sem consciência
celular, sem celular, sem a porra da
agenda, sem rima, sem nada,
só a loucura insana a te emoldurar
a alma
loucura - esta bela armadura
esta couraça intransponível
este colete a prova de tudo
este poema, impiedoso,
a te perfurar o coração

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Poema desprezível (Nicolas Behr - 1958)

eu gosto de você porque você deixa
que eu te use que eu te exiba
como um troféu com um trunfo

eu gosto de você porque você finge
que gosta de mim que me aceita
quando no fundo sei que me odeia

eu gosto de você porque você sabe
que sou machista
egoísta e você nem liga masoquista

eu gosto de você
porque você acha meus
poemas incríveis quando
sabemos são sofríveis

eu gosto de você
porque não consigo pensar em você

se pensasse talvez te desprezasse