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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Treva alvorada (Mariana Ianelli - 1979)

Absurda leveza que te faz afundar
E não é a morte.

Cumpres tua descida calado
(Uma palavra por descuido
Seria amputar a verdade).

Náufrago do tempo,
Tuas horas transbordam.
Dentro da lágrima,
Imensidão, já não choras.

Estrelas e estrelas,
Copulam a sede e o engenho
De que te alimentas
Como nunca te alimentou
O gosto da carne.

Tua face atônita
Se existisse uma face,
Tuas costas nuas,
Se a nudez fosse do corpo.

Um sorvedouro
Onde a paz dos contrários,
Treva alvorada.

Fecundado, flutuas.
É a lei da graça.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Nada foi feito que revivesse a coisa morta (Mariana Ianelli - 1979)


Nada foi feito que revivesse a coisa morta,
Mas no rosto do amante solitário
Uma tarde despontou dentre milhares
E quis do homem o seu prazer intenso
De sonhar o mesmo vulto sobre a cama,
O mesmo vínculo que se estabeleceu
Para ser rompido como os que o antecederam
E os que viriam raramente depois dele.
Cindiu a indiferença dos anos e voltou
Com sua fome, seu poder ambíguo de encantar
Pela eternidade do instante que floresce
Apenas quando a melancolia de tê-lo perdido
Também volta, agora com toda a sua beleza visionária.
Uma tarde cuja manhã já se esqueceu
No traço de tantas iguais que vêm e passam
Como para só cumprir o ato necessário;
Uma tarde cuja noite se tornou algum resíduo amortalhado.
Estava ilhada, suspensa no fluxo do tempo,
Era a relíquia do amante, e era o seu trauma.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Estrela da Terra (Mariana Ianelli - 1979)

Jóia do absurdo
Esta flor imaginada
Dentro do teu sonho de menino.
Uma ilusão querer guardá-la para sempre:
Quando chegar o sol das almas deste inverno,
Será o fim do tempo de raízes.

Pétala o que em ti germina,
Resplandece e perde o viço.
Pétala para tudo que é finito.
Pela futura celebração da memória,
Pelo que, um dia, sem explicação, termina.
Pétala para que tu sejas grato ao que há de vir.

O amor se apressa, se desespera,
Trágico de tanta alegria.
Por ele surge o escarlate
E o lastro de estandarte sob a terra.
Por ele se abre e se desfolha a tua rosa
No vento arauto das despedidas.

domingo, 30 de novembro de 2014

Retrato de Katia (Mariana Ianelli - 1979)

Separada da tua sorte, desde muito,
trago junto da manhã
teus olhos estrangeiros e assustados.
Todo retrato que defendo para mim.
Num segundo meio deslocado
da nossa espera sem-razão, adiante,
te verei mulher de uma clareza expandida
que me confundirá.
Vejo estes silvestres para que eu não te duvide
quando surgires entre eles e eu te redescobrir.
Tua boca não é essa, não é como nenhuma,
a tua boca é só a tua
e os olhos que eu lembro,
não os mais belos, não os mais quentes,
são o teu brilho triste de ser, tua síntese azul.
E quando vieres, eu te pergunto,
serás quem eu lembro?
Luto, emboscada, revolta italiana,
ou terás merecido os outros
que me põem muito medo
por seus caminhos hesitantes, suas armadilhas?...
Organizo aquela mesma menina
jogando o cabelo louro para trás
e peço repetidamente
que sejas ela quando vieres,
que eu sorria, quando vieres,
como outra criança que te fizesse festa.
Alguma saudação calada entre a gente
de improviso vai lembrar e esquecer
o peso obrigatório dos dias.
Adiante, surgiremos desvelando nosso próprio susto.
Agora vem, que está feita a minha prece.

sábado, 29 de novembro de 2014

Pântano (Mariana Ianelli - 1979)

Haverá uma noite
No fundo desta lama
Para tudo o que foi teu:
O caminho de partida,
O horizonte das bandeiras,
O extraordinário ano de 1980.

Entre guelras e barbatanas,
No ventre de uma água sonolenta,
O castelo de tua memória se acende.
Ressurge um alto portão de madeira,
De longe brilha a pesada maçaneta,
Cresce para baixo o tronco do velho castanheiro.

No escuro passeia o teu amigo inexistente,
Deitam-se juntas as tuas amantes insatisfeitas,
Do topo de uma escada o teu filho te acena.
Os muros contornados e logo desconhecidos,
As alamedas visitadas e já desaparecidas
Formarão ali tua cidade secreta e sem fronteiras.

O retorno para casa como se para um cativeiro,
Toda vacuidade do suplício e do desejo,
Um gemido de orgasmo reboando no silêncio:
Tudo o que foi teu renascerá
No pântano de uma noite derradeira
Para além do tempo do esquecimento.

sábado, 21 de junho de 2014

Regalo (Mariana Ianelli - 1979)

Prepara as costas em disparada,
uma respiração veloz para cantar tua entrada
na treva do largo refúgio.
Põe num giro, planta a tua verga,
(os nervos queimando)
e os dois trabalhando pelo mais,
a pergunta que sobe os pulmões
embaixo ela incha, conquista evoluída...
Dedos entre dedos,
a mistura se firma, demorada.
Boca de um vem rogando,
ajustando assanhada a mira do assalto,
boca de outro se banha, gostosa se junta
enlaça e baba.
(...Boca se bebe na boca)
Cabelo dos mares valentes
corre no braço, arrepia o seio,
um choro estridece, cantado na orelha
- eco de confissão.
Carne na carne,
as chamas concorrem, bamboleiam metas.
Ela enforca as tuas saídas, e te pede - vem,
aflora, aferra, afunda aqui.
Agora tua a seiva que é de poucos (de tão poucos).
A língua desenrolada solta na pele o melaço,
o seu ardido sabor.
O regalo entornando sem controle
em ti na outra em ti,
uma impureza desvairando insana,
agarrada bem na raiz da tua importância,
da tua perfeita afirmação.
Atrás da cabeça os punhos, contorcem-se veias,
no lábio borbulha uma condenação...
Vai e chora no estreito, duro, forte
e agora encharcado estreito.
Vira fuzil doido, incontido, e jorra,
fonte na fonte.
Caídos do topo, úmidos e compensados,
teu riso que rasga o quarto,
iniciamos o abraço só nosso.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Variações para morte (Mariana Ianelli - 1979)

A gota ácida, o mármore em cima.
Coroa de espinhos.
Mais outra vez um chamado de carinho,
uma flor dedicada.
A ganância do escuro querer ser mais negro.
Ela, não a verdade,
mas cólera radiante na perda de tudo,
e do mundo novo.
Um abuso do vento, ou a furta-cor.
Furta azares e acertos.
Ir para o susto do inaudito,
a mais secreta gestação da vida.
Saudade para os outros.
Lentidão maior do gesto,
o tempo cedido de sobra.
Livre proveito do sono.
Guardar-se, sumir-se nas alturas de lá.
O corpo abastado, sublime.
Prazer ao meu descanso.
O lado da sombra sem lei,
sem vacilo, voz ou contradição.
Prazer, prazer.
O dia inflamado em mim.
Nada de necessário,
de providente, fugaz.
O nada, devagar.
Regato das delícias tão invisíveis.
Meu largo estremecimento pelos céus.
Langor inesperado surgindo
de qualquer pouca fé,
de qualquer reserva miserável.
Um amor desocupado, minúcia.
O corpo ficando lento, tão lento
como uma parte do infinito
fora de qualquer tempo.
Tanto prazer.
O mais, longe de mim, que será meu.
Intervalo de toda a canção,
e de todos os homens.
Minha isenção.
Um suave recuo para dentro,
e a partida desenvolta.
Sentir isto e aquilo, generosamente.
Iminência de não ser.
Ela, ambiciosa para vir,
mas com seus cuidados, sua sedução.
Ela, a melindrosa.
Bendita.
Noite resolvida em mim,
sua água densa de inverno.
Meu corpo atenuado,
dançarino... amiúde.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Cerimônia (Mariana Ianelli - 1979)

Agora saberás o valor ignorado do tempo.
De uma vez serás efêmera e eterna
Como o animal que anda sobre a campina.
Tua boca de amar,
Mas amar com demorados intervalos ausentes,
Se abrirá sem música, murcha e seca, pedindo água.
Então eu virei de outros mundos
Em minha jornada violenta para te aliviar
E suportar o deserto contigo.
Virei de uma andança antiga te pertencer
E debaixo de um ramo de avencas
Pentear teu cabelo com as unhas.
Serás a mulher dentro do meu abraço,
E, para quem eu terei vindo, serás mãe.
...A audácia fatigada do tempo
posta em ti, porque é agora.
Como o animal que caminha francamente
E amoroso sobre a grama, serás mãe.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Confessionário (Mariana Ianelli - 1979)

Faz tempo não cuido de sondar a morte,
Faz uns anos
Que não durmo em cama estreita
Que não durmo em horas certas
Que não falo das minhas coisas
Que mais doem no peito
Para as alturas apagadas do céu
No meu vislumbramento por Deus.
Faz tantos anos
Que não cuido de sondar a morte
Nem os ciprestes que europeízam nossos túmulos
E que dão verde durante dias e noites.
Minha cabeça contra os lençóis: quero sumiço.
Faz poucos anos estive chamando por Deus.
Foi tão percorrido o repertório dos meus erros
Que Ele jurou o tempo que durasse minha vida
Não corrigir meus extravios, meus desacatos.
Me termino e Deus ainda é sinistro como eu:
Não decide sobre os meus prazeres, minhas estrofações.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Dueto (Mariana Ianelli - 1979)

Nosso segredo de câmara
(Como o de tantos casais)
Seria o acordo de calar um morticínio
O mórbido prazer do gosto amargo
A farsa consentida
Uma legião de demônios
A cada gesto vagamente ambíguo –

Seria ainda o mais escuro,
Não fossem os nossos pés na água
Flutuando sobre as hidras,
A pele onde uma casa
Ao final de um longo exílio,
Uma cruzada de crianças, um dueto,
Nossa corola aberta a cada grito.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Pela boca (Mariana Ianelli - 1979)

Antes de tudo, o grito
- Ninguém sabe se de dor
Ou de aviso.
A fome dessedentada
No peito da mãe.
As primeiras letras gagas
Até que algum nome
Do mundo dos homens foi dito.

Em outros tempos, novos sabores.
O beijo que ensina a delícia,
O fumo alimentando o vício,
A delação que trai o falso amigo,
O consolo num copo de sidra.
A voz, conhecendo a si mesma,
Canta um bolero azul de Andaluzia.

São mínimas as distrações,
Enormes os compromissos.
Uma promessa de vida longínqua,
Um leve murmúrio ao pé do ouvido,
O sopro que faz voar um cisco,
Um discurso antibelicista
Para uma platéia de vítimas.

Pela boca se urde a lembrança
De um sem-número de sentidos.
A saliva morna, espumando,
Tão grande e indomável é a cobiça,
Minutos de felação,
A confissão de uns poucos delitos,
Um túmulo dentro de outro
Depois do último suspiro.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Treva alvorada (Mariana Ianelli - 1979)

Absurda leveza que te faz afundar
E não é a morte.

Cumpres tua descida calado
(Uma palavra por descuido
Seria amputar a verdade).

Náufrago do tempo,
Tuas horas transbordam.
Dentro da lágrima,
Imensidão, já não choras.

Estrelas e estrelas,
Copulam a sede e o engenho
De que te alimentas
Como nunca te alimentou
O gosto da carne.

Tua face atônita
Se existisse uma face,
Tuas costas nuas,
Se a nudez fosse do corpo.

Um sorvedouro
Onde a paz dos contrários,
Treva alvorada.

Fecundado, flutuas.
É a lei da graça.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

À meia voz (Mariana Ianelli - 1979)

A terra fraca eu amei,
A terra fraca e desdenhada.

Amei tua carnadura
Sedenta de cuidados,
Meu Deus.

Me doía a casa morta
Erguida sobre séculos,
Em toda parte o ressaibo
De uma guerra difícil.

O leão de pedra na porta
Foi sempre o guardião
Dos jardins
E eu nem sabia.

Não sabia
Do que uma prece é capaz
Quando te abisma
Meu Deus
Num mundo de humana ira.

sábado, 9 de novembro de 2013

Como quem pesca (Mariana Ianelli - 1979)

Esperar ainda é pouco.
Mais é esperar como quem pesca
Absorto entre dois céus –

Um barco fadado às trevas,
Feito para ser levado ao fundo
E o mar, desmesurado, não leva...

Serena e soberana fera
Que vem lamber as mãos de um homem
Por um instante e por obséquio.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Ouro e púrpura (Mariana Ianelli - 1979)

Agora um país de ouro e púrpura,
Outono de rosa mosqueta e de maçãs –
Não o paraíso que sonhamos uma vez
Apenas para inventar boas memórias –

Não é mais um êxtase de nossa lavra
Nem o disfarce de feridas bem guardadas
Por receio de munir com as nossas faltas
Um inimigo no sentimento do amante.

Não é mais deixar para amanhã
E amanhã sempre a mentira deslumbrante
De a um mínimo gesto de distância
Poder tocar o ideal de uma paisagem.

Já se foram todos os nossos truques,
Abandonados num tremendo acidente,
Numa tormenta, num incêndio, numa alma
Que foi picada em seu sono e despertou.

Agora um país de ouro e púrpura
E nós despojados, tontos de ar puro,
Recém-maduros para o amor sereno,
Nosso outono de rosa mosqueta e de maçãs.

sábado, 14 de setembro de 2013

Extensão do Mito (Mariana Ianelli - 1979)

Contam que ele desceu
Ao vale dos esquecidos
E cantou acima do suplício.

Que apaziguou o vento,
Estufou as vinhas,
De olhos fechados
Seduziu a serpente
Como se replantasse
O primeiro jardim.

Que foi odiado, despedaçado,
Lançado ao mar,
Para nunca mais
Uma voz se atrever à harmonia.

Mas não contam que uma mulher
Reuniu seus fragmentos
E encantou as mulheres da ilha,
Que assim Orfeu amou Eurídice,
Finalmente em corpo e lira.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Vigília (Mariana Ianelli - 1979)

Esta noite
Nem o gozo do pensamento
Te entretém.

Teu sentimento
É todo um espanto seco
Como se te mirassem
Os olhos da inocência
E desta vez não te acudisse
O desprezo.

Te comove
Teu sangue trabalhando
Em silêncio,
Resvalar te comove,
Pode ser teu ato extremo.

Nada se põe entre esta noite
E a perfeição
Da tua órbita no tempo.

Só tuas mãos ainda servem
De instrumento,
E elas se deitam.
Podem alcançar adiante,
Escolhem alcançar
A transparência.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Segunda vez (Mariana Ianelli - 1979)

Quando te chamarem
E a hora for grave,
Não respondas,
Não respondas ainda.

Repara antes no teu nome,
Separa-te dele, levita.
Repara no que não foi batizado,
Escarlate, atroz, que extasia.

Procura as mãos
Que te cavaram para fora,
Inaugurando o teu passado,
Imiscuindo-te entre a fome e o frio.

A estocada de luz, imagina,
Que te cristalizou no tempo
E assimilou a tua forma
Na forma viva de um grito.

Tua mãe, imagina tua mãe,
Quanto ela envelheceu num dia,
Os olhos mais alucinados
Que os olhos de um assassino.

No teu sono sem pecado
Procura o que não pode ser limpo –
Todo o impossível pode
No teu sono sem política.

E se te chamam,
Se te chamam ainda,
Que seja maior o teu longe,
Mais largo o teu giro.

Sonâmbulo, plácido
Sabedor dos ventos,
Sobrevoa o teu nome
No parto do teu espírito.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Neste lugar (Mariana Ianelli - 1979)

Nenhum traço de delicadeza,
Só palavras ávidas
E o tempo,
A devoração do tempo.

Um jardim entregue
Às chuvas e aos ventos.

O que para os cães
É febre de matança
E para um deus
Um dos seus inúmeros
Prazeres.

Caminhos de sangue
Onde reina o amor primeiro,
Morada de súbita
Ausência do medo.

Um despenhadeiro, o céu
E uma queda
Sem alívio de esquecimento.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Os patriarcas (Mariana Ianelli - 1979)

Nós que enlouquecemos de orgulho
Produzindo ferro e fazendo música,
Com que despeito vertemos nosso nojo,
Nosso uivo, nossa dor de criatura

E o que dizer do prazer subterrâneo
De atravessar desertos farejando sangue,
Qualquer coisa que se mova e resplandeça,
Uma infância para extirpar do mundo

E quanto ainda pode valer nossa aliança
Com o demônio do sarcasmo, essa jura
De um dia pousar sobre a nossa cara
O hálito quente do destino feito um lobo

Uma cicatriz feito um brasão de família,
Todos marcados, condecorados pelo crime,
Tantos filhos, tanta fúria depois
De termos gerado em nós os assassinos.