Mostrando postagens com marcador Ivan Junqueira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ivan Junqueira. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de julho de 2014

Prólogo (Ivan Junqueira - 1934 - 2014)

Eu sou apenas um poeta
a quem Deus deu voz e verso.
Na infância, quando fui relva,
sentia os pés dos efebos
a calcar-me as frágeis vertebras
e colhia das donzelas
o frêmito que, venéreo,
era um augúrio da queda.

Depois, quando fui cipreste,
vi como o vento, em seus dédalos,
cingia-me a áspera testa
e tangia-me as ideias
que nos ramos, vãs quimeras,
pousavam como uma névoa,
úmidas ainda das trevas
e do abismo de que vieram.

Quando fui córrego, as pedras
me ensinaram que o critério
do que em tudo permanece,
nunca está nelas, inertes,
mas nas águas que se mexem
com vário e distinto aspecto,
de modo que não repetem
o que antes foi (e era breve).

Quando enfim galguei o vértice
de alguém que eu mesmo não era,
compreendi que esse processo
de sermos outros (e até
termos em nós outro sexo)
nada em si tinha de inédito:
já se lia no evangelho
de um deus ambíguo e pretérito.

E assim fui sendo esse leque
de coisas fluidas e inquietas,
jamais levianas, bem certo,
mas antes, em seu trajeto,
vertentes as mais diversas
de uma só e única célula:
a da matriz que não é
senão seu próprio reverso.

Espelho de meus espectros,
urna de engodo e miséria,
alma sôfrega e sem tréguas,
osso escasso no deserto
onde jejua um profeta,
solidão, infâmia e tédio
– eu sou apenas um poeta
a quem Deus deu voz e verso.

domingo, 18 de agosto de 2013

Escarpa (Ivan Junqueira - 1934)

Vem. É por aqui.
É por aqui a escarpa
onde te aguarda
a áspera escalada.
Nem relva nem regato,
tampouco uma árvore
que te agasalhe
ou solitário galho
cuja sombra magra
de ti se apiade.
Sequer um pássaro
(às vezes, mas é raro,
o ninho ensanguentado
de uma ou outra águia).
Apenas o calcário
de trilha que se arrasta,
pedregosa e escassa,
entre urtigas e cactos.

A esperança não importa,
nem o amor, nem a saudade
dos que te amaram
e ficaram lá embaixo.
Mas uma pedra te cabe
e hás de levá-la
até às bordas da escarpa,
mesmo que saibas
(e este é o caso)
que ela depois desaba
encosta abaixo,
e que ainda uma vez
e outra vez mais
te cabe apenas carregá-la
rumo ao topo ensolarado,
como se leva um fardo
(talvez o teu cadáver)
sobre o arco das espáduas.

Vem. É por aqui.
É por aqui a escarpa
que hás de galgar
em direção ao nada.

sábado, 17 de agosto de 2013

Não virá (Ivan Junqueira - 1934)

Quando virá? Não virá nunca.
Será sempre a garra adunca
encravada em minha nuca.
Será sempre essa verruma
que a memória me perfura
e o pensamento me empurra
para o túmulo da dúvida.
Será, não o sol, mas a chuva
cujas gotas caem mudas
sobre o inútil latifúndio
onde tudo enfeza e murcha.
Será a alma na penumbra,
alheia ao êxtase e ao júbilo,
sobre si dobrada em ruga
e atenta apenas ao curso
do tempo e de suas curvas,
desse rio em cujo fluxo
somente uma vez mergulhas.
Será talvez, quando muito,
essa espera taciturna,
essa volúpia da luz
que soluça ao fim de um túnel
jamais percorrido a fundo.
Não virá, não virá nunca.
E lá estarás, ao crepúsculo,
sem esperanças nenhuma,
o rosto absorto, mediúnico,
sem mover sequer um músculo.

sábado, 13 de julho de 2013

Quase uma sonata (Ivan Junqueira - 1934)

É música o rigor com que te moves
à fluida superfície do mistério,
os pés quase suspensos, a área
partitura do corpo, seus acordes.
Espaço e tempo são teu solo. E colhem,
não tanto a luz que entornas, mas o pólen
com que ela cinge e arroja as coisas mortas
além da espessa morte que as enrola.
É música o silêncio que te cobre
quando lampeja à noite tua nudez,
em franjas derramada sobre o leito
das águas, onde as algas te incendeiam
porque semelhas, mais que o mar profundo,
o intemporal princípio e fim de tudo.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Canção estatuária (Ivan Junqueira - 1934)

Severa e pura
pedra escultura
o tempo dura
em tuas curvas

Sulco após sulco
ângulo cunha
toda te aguças
seca nervura

Te acuam musgo
farpa de chuva
branco de bruma
penumbra inútil

Mas nada suja
nem subjuga
na pedra abrupta
tu mesma nua

E que tumulto
em tua postura
tão tumba nunca
mas dentro júbilo

Mais dentro tu
tua gula surda
do que é transcurso
e se transmuda

Assim perduras
infanta fúnebre
pois é defunta
que vens a lume

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Você (Ivan Junqueira - 1934)

Você tem todas as cores
- azul, lilás, carmesim -
E dorme sempre ao meu lado,
Entre um bruxo e um querubim.

Você não muda; é assim:
ora se queixa, ora ri,
às vezes não diz palavra
e olha de banda pra mim.

Eu ganhei você um dia,
cheio de laços e fitas;
até guizos você tinha
na gola e nos borzeguins.

Eu pus você entre os livros,
junto às garrafas de vinho,
sob as urzes e as glicínias
que cresciam no jardim.

Mas aos poucos suas cores
foram ficando sem viço,
e a bruma, como um feitiço,
vestiu você de velhice.

Sob o verde pinheirinho,
onde mil luzes cintilam,
vez por outra você brilha
mais até que o sol a pino.

Um dia (claro, é a vida)
você se irá de mansinho,
mas deixará, eu sei disso,
em minha carne um espinho.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Ária marinha (Ivan Junqueira - 1934)

Tecla de sal
clave de sol
acorde oculto
num caracol

Será o espectro
da infância morta
que desabrocha
como um farol?

Serão ginetes
já sem memória
fincando esporas
no azul lençol?

Será meu pai
debaixo d'água
com sua flauta
e seu punhal?

Ou não será
em mim disperso
o som submerso
de outro coral?

Resposta alguma
à tona sobe
mas eu indago
e lanço o anzol

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Lição (Ivan Junqueira - 1934)

A Marco Aurélio Mello Reis

À beira do claustro
o monge se inclina
e na pedra aprende
o que a pedra ensina:
que a vida é nada
com a morte por cima,
que o tempo apenas
este fim lhe adia
e que o ser carece
de não ser ainda,
pois à luz se esquiva
do que o purifica:
a doce pedra,
sem musgo ou limo,
o pátio só,
conquanto o sino,
o ermo das coisas
simples e humildes.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Antes que o sol se ponha (Ivan Junqueira - 1934)

Antes que o sol se ponha e seja tarde,
e o azul crepuscular me deite a garra,
e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra
ou mortalha que o corpo me resguarde;
antes que murche a pétala na jarra,
e eu cale, para sempre, sem alarde,
e tudo o que me coube, por covarde,
não mais recorde a relva que se agarra
às últimas raízes da existência;
antes que eu cerre os olhos e adormeça,
e em minhas próprias células esqueça
as chamas que me ardem na consciência;
antes que a luz regresse e que amanheça,
e eu a mim mesmo já não me conheça.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

É tão pouco... (Ivan Junqueira - 1934)

É tão pouco o que podes, quase tanto
quanto um menino na erma imensidão,
o corpo sem valia, a alma em abandono,
os pés suspensos no infinito, o rosto
em lágrimas, o opresso e frágil coração.
É tão pouco o que podes, muito menos
do que uma pálida e fugaz recordação
ou os músculos crispados e ofegantes
às bordas do penhasco que galgaste
no esforço de uma inútil ascensão.
É tão pouco o que podes, é sequer
o que outros, menos hábeis, poderão.
Ou nem isso, essa raiz que se atrofia,
essa migalha que esfarinha em tua mão,
essa flor que não floresce nem sucumbe,
esse pássaro implume, essa insepulta
e agônica semente que plantaste em vão.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O poeta (Ivan Junqueira - 1934)

O poeta está morto.
Cerrem-lhe as pálpebras,
o olhar absorto,
a boca cheia de tropos
e metáforas barrocas.
Sepultem aquele broto
que em sua garganta rouca
endureceu com o caroço
e a voz outrora doce
lhe afogou em fundo poço.
Deixem-lhe o corpo exposto
para que vejam o que pôde
fazer a morte e sua foice
com aquele que fora
corola, diamente, voo.
O poeta está morto.
Pouco importa agora o sopro
que lhe deu vida e alvoroço,
como tampouco o áspero corvo
que a alma lhe pôs em fogo.
Restam-lhe os versos, poucos,
e as sílabas já sem fôlego
às quais se agarrou com força
porque as ouvia como agouro
de um fugaz e último coro.
O poeta está morto.
Que nos sangrem, garras de osso,
as suas marcas do zorro.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Mater dolorosa (Ivan Junqueira - 1934)

Entre os túmulos e os dobres
é que vens, lenta e lutuosa,
nas mãos o cântaro e a rosa
que, defunta, já não colhes.

São teus olhos duas covas,
como as dos crânios, inóspitas,
mas eis que delas escorre
o que a morte não encobre:

essas lágrimas que bóiam
à tona do que, sem bordas,
foi outrora a tua história
e agora é o pó dos espólios.

Úmido é o húmus da morgue
e do catre em que te encolhes,
como se o frio, em teus ossos,
queimasse mais que uma forja.

Muda e estóica até na cólera,
resta a cinza dos teus fogos.
E o que de mim ainda sobra
busca a tumba do teu colo.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Morrer (Ivan Junqueira - 1934)


Pois morrer é apenas isto:
cerrar os olhos vazios
e esquecer o que foi visto;

é não supor-se infinito,
mas antes fáustico e ambíguo,
jogral entre a história e o mito;

é despedir-se em surdina,
sem epitáfio melífluo
ou testamento sovina;

é talvez como despir
o que em vida não vestia
e agora é inútil vestir;

é nada deixar aqui:
memória, pecúlio, estirpe,
sequer um traço de si;

é findar-se como um círio
em cuja luz tudo expira
sem êxtase nem martírio.

Limbo (Ivan Junqueira - 1934)

Ali está. Alheio às minhas mãos,
informe e pequenino, tão
indeciso, iluminado apenas
de sua pouca e solitária luz.
Dorme na sombra que o circunda,
como no fundo de um casulo. Ignora
ainda o que o povoa, sequer
sabe que existe. Ali perdura
à espera do ritmo, da música.
Estrelas, insígnias, leves partituras.
(Que ouvidos as escutam?)
Está ali. Imóvel e silencioso,
a um passo da síncope e do gozo.
Ali está. Heráldico emblema
- o signo incógnito do poema.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O cofre (Ivan Junqueira - 1934)

Um cofre apenas sobre a terra
e o rosto antigo, em véus imerso,
de uma donzela que o trouxera
em suas mãos de névoa e sépia.

Um cofre (o fel de seu mistério)
sepulto sob o musgo e as messes,
e essa donzela que viera
desde os confins, canção submersa,

tocata e fuga sobre teclas
de um cravo já sem pétalas,
mas cujo espinho ainda te fere
por entre as frestas do pretérito.

Um cofre é tudo quanto resta
a quem o leva, como um féretro,
por pátios, becos e vielas,
rumo ao secreto cemitério;

é tudo (nada) o que apetece
a quem dentro de si o enterra,
sem flores ou piedosa prece
que o encomende à vida eterna,

sem nenhum verso que o celebre
ou lhe abra as pálpebras de ferro
para que ali um sonho medre
dentro do sono que o encarcera.

Um cofre apenas, os ciprestes
de um adro arcaico onde estiveste,
quando fremia essa donzela
à tua espera. E não vieste. 

sábado, 28 de maio de 2011

Epitáfio (Ivan Junqueira - 1934)

De tua história, nada;
ou tudo, se quiseres;
entre uma e outra data,
a fábula de seres,
nunca o tangível, mas
o pássaro, o maralto
(o passo, não: o salto
em vão, fora do espaço),
o amor, vale dizer:
sua forma álgida e rara,
avessa à coisa amada
- e, súbito, colher
a morte, flor cediça,
dentro da vida.

Pacto (Ivan Junqueira - 1934)

Terei parte com o demônio
ou será que apenas sonho
o que os outros, além do sono,
jamais enxergaram na sombra?

Seria um acordo anônimo
com o mal, o horror, o assombro?
Seria o quê? Não suponho,
mas sinto em meus neurônios.

Essa harmonia redonda,
de que se gabam os geômetras,
não seria antes sintoma
do conflito entre os antônimos?

Não haverá na hecatombe
algo de lúdico e hedônico,
uma ordem que, por atônita,
nos dê a medida dos homem?

Deu-me Deus dois olhos nômades
com que vejo o que me ronda:
um traz o pélago à tona;
outro, o que escondem os biombos.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Tristeza (Ivan Junqueira - 1934)

Esta noite eu durmo de tristeza.
(O sono que eu tinha morreu ontem
queimado pelo fogo de meu bem.)
O que há em mim é só tristeza,
uma tristeza úmida, que se infiltra
pelas paredes do meu corpo
e depois fica pingando devagar
como lágrima de olho escondido.

(Ali, no canto apagado da sala,
meu sorriso é apenas um brinquedo
que a mãozinha da criança quebrou.)

E o resto é mesmo tristeza.

Canção (Ivan Junqueira - 1934)

Porque pedes, trago flores
e derramo-as em teu leito,
sobre teus úmidos pêlos,
entre os gomos do teu seio.

Porque pedes, planto flores
em lugar do desespero
e mudo os tons da palheta
do negro para o vermelho.

Porque pedes, colho flores
até na escarpa mais erma,
nos desertos onde a seca
mostra a vida pelo avesso.

Porque pedes, ponho flores
nos tetos e nas paredes
e são elas, não as letras,
que dão sentido ao que escrevo.

Porque pedes, deito flores
às ondas de teus cabelos
e elas faíscam - estrelas -
no pélago em que as semeio.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O poema (Ivan Junqueira - 1934)

Que será o poema,
essa estranha trama
de penumbra e flama
que a boca blasfema?

Que será, se há lama
no que escreve a pena
ou lhe aflora à cena
o excesso de um drama?

Que será o poema:
uma voz que clama?
Uma luz que emana?
Ou a dor que o algema?