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sábado, 8 de março de 2014

Penetração do Poema das Sete Faces (Elisa Lucinda - 1958)

A Carlos Drumond de Andrade

Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A esse papo Indo-lente (Elisa Lucina - 1958)

Quando me perguntam depois de
"Ó que lindos olhos"...
Esses olhos são seus?"
Me sinto como se perguntassem
se o sol é rei mesmo
ou uma espécie de lâmpada de mil
Me sinto constrangida como se tivesse
sido possível a alguém alguma vez
confundir lata de goiabada com fruta de pé.
me sinto velha virada há milênios
Aniversariada por várias civilizações e nada esqueci.
Me sinto madura madeira escaldada
pra lá destas idades do agora.
Sou dos longínquos tempos de goiabeiras
mangueiras, formigas cabeçudas
tanajuras de umidade, baratas cascudas
e canaviais nos quintais
Sou ainda mais
na magia do que havia nesses anais,
sou do tempo em que era bom
nascer com olhos de esmeralda
e a artista a ser cumprimentada
era a mãe-natureza
pela proeza de olhos ser olhos
e lente ser lente.
Sou do tempo em que eu era
toda realeza
e com certeza não se compravam olhos
em shoppings, meus deus.
Sou do tempo em que meus olhos
Só podiam ser meus.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Late ilusão (Elisa Lucinda - 1958)

Em noite de lua cheia
geme ao meu lado o meu cão
acabado de chegar
late ilusões ao meu ouvido
e meu sentido
diz que ele veio pra ficar
Mas a vida passa e vira
páginas da folhinha
o que era cheia e domingo
foi minguando em segundas e terças
e meu homem, minha besta
voltou novo e repetido
como se fosse ficar até sexta
três dias de ele chegando de madrugada
Três dias de ele nadando na minha água
Conversas de homem e mulher
beijo na boca
tirar a roupa
novos latidos de ilusão no meu duvido
meu homem partiu na derradeira manhã
todo agradecido
dos momentos de amor que uivou comigo
eu fiquei lua sozinha no céu com aquela saudade amarela
e ele na terra cantando latindo partindo
uivando pra ela.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Quanto mais vela mais acesa (Elisa Lucinda - 1958)

Um dia quando eu não menstruar mais
vou ter saudade desse bicho sangrador mensal
que inda sou
que mata os homens de mistério

Vou ter saudade desse lindo aparente impropério
desse império de gerações absorvidas

Desse desperdício de vidas
que me escorre agora mês de maio.

Ensaio:

Nesse dia vou querer a vida
com pressa
menos intervalo entre uma frase e outra
menos respiração entre um fato e outro
menos intervalos entre um impulso e outro
menos lacunas entre a ação e sua causa
e se Deus não entender, rezarei:

Menos pausa, meu Deus
menos pausa.

sábado, 30 de junho de 2012

Cor-respondência (Elisa Lucinda - 1958)

Remeta-me
os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem-feito
que você tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era seu jeito
ou de propósito
mas era bom
sempre bom
e assanhava as tardes
Refaço o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois.
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Medo (Elisa Lucinda - 1958)

Um finíssimo fio esticado sobre um abismo
Onde haveremos de bailar
Enquanto isso fui pegando seus olhos de antigo varão
E espalhando pelo meu corpo
Como se fosse o sol
Como quem acha um não
Os dias se repetem luxuosos
Reverberados no vídeo de nós dois:
Pernas, gosto, dedos e calor.
A turbulência do mundo e dos compromissos
Pensa que não vai deixar a gente se querer direito
Eu rio.
Depois choro por dentro
Como quem precisa de antemão
arranjar um senão
descolar um lugar
no saguão do meu espaço
no palácio do meu coração
Para você ficar, quando precisar ser
só memória, ausência, obsessão.

domingo, 13 de maio de 2012

Poemenina dos olhos (Elisa Lucinda - 1958)

É claro que ando pelas ruas
e que há mirada nisso enquanto isso.
Na carona do meu rosto
na aba do meu gosto
vão os olhos de poeta
os olhos que acordam meu dia
são de poeta
os que sonham meus sonhos
são de poeta
os que se enfiam nas entrevistas
dos coletivos
são de poeta
os que desenham ilusões
e fazem outros planos
são, todos são, tudo são.
Meu erro, meu nervo, meu tesão
funciona poesia sem decidir isso.
Esse olhar que habita meus olhos
nesta mania de chegar antes de mim
e do meu corpo, a todos os lugares,
é seguramente de poeta.
Condenado ao verso
como um fiscal da lida
impeço que a vida passe
como se pudesse não ser percebida.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Amanhecimento (Elisa Lucinda - 1958)

De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Sósia (Elisa Lucinda - 1958)

Mas que desagradável mania tem a humanidade
de se tornar subitamente parecida com o amor da gente:
Todos roubam a cara e os particulares sinais
do amor que a gente espera
do amor que a gente erra.
De tanto confundi-lo de longe na rua
vou mamando a poesia desse equívoco
como quem menstrua em lugar de filhos.
A saudade arma um circo onde palhaços e garis
têm cara do com quem eu seria feliz.
Diante do meu nariz, vou jurando que é ele
Cada rosto, cada passo, cada traço
vou jurando que é dele
e me enganando nas ruas
bebendo nesse diapasão
de uma perigosa e destilada bebida
que se toma de ilusão.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Prisão (Elisa Lucinda - 1958)


Não consigo me soltar:
nem gases nem versos.
Hoje sou reverso de cantilena
antítese do poema
me espremo me alvoroço
me debulho me coço
me vasculho me provoco
e não sai nada.

Séculos se passaram
e o corpo ainda sente:
nasci na lei do ventre-livre
e hoje sofro de prisão de ventre.

sábado, 26 de novembro de 2011

O carro (Elisa Lucinda - 1958)

Manhã de segunda
eu passo a primeira
guio o carro da semana
sua cara aparece
no vidro, vestido
de editor-chefe.
Redação de viscose
o linho
nobre imagem
de você no pára-brisa
indo todo de vez
guardando o sono
das avenidas
na algibeira do mês.
Metade negro
metade francês
meu corpo freme
em prol do acelerador
mas a perna é sua
música indolor
a perna soa e sua
o tempo que carbura
dor.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Adoção (Elisa Lucinda - 1958)

Não sei se te contei
mas há algum tempo sou minha
me adquiri num mercado
onde o escambo era da posse pela liberdade
me obtive numa dessas voltas da morte
me acolhi num desses retornos do inferno.
Dei banho, abrigo, roupas, amor enfim.
Adotei o meu mim
como quem se demarca e crava em si o mastro da terra à vista
a cheiro, a tato, a trato, a paladar e ouvido.
Não sei se te contei
me recebi à porta da minha casa
abracei, mandei sentar
Abracei eu mesma, destranquei a porta
que é preu sempre poder voltar.
Dei apenas o céu à sua legítima gaivota
Somos a sociedade
e ao mesmo tempo a cota
Visita e anfitriã
moram agora num mesmo elemento
juntas se ancoram
na viagem das eras
No novelo do umbigo
No embrião do centro
No colo do tempo.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Anúncio (Elisa Lucinda - 1958)

Quem será que há de me acariciar
os cabelos
e cuidar de mim
pagar as minhas contas
enquanto escrevo?
Quem encerará a casa
enquanto eu publico.
Quem lavará a roupa
enquanto eu medito
e faço exercícios de voz?
Quem dentre vós quer trabalhar pra mim
que eu pago!
Quem tarefará a vida
enquanto eu exerço o ofício de ser poeta
e cozinheira e só.
Depois nos sentaremos à mesma mesa
e trocaremos nossas poeiras,
Você me fará afagos
e eu te beijarei com meus versos
Você me contará da purificação
que pode promover um Pinho sol
E eu te falarei do sol
que nasce desse pinho poeta
sobre a máquina de escrever
Jantaremos a comida que eu vou fazer.
Entre feijão e poemas
seremos felizes, apenas.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Profecia (Elisa Lucinda - 1958)

Um dia eu vou rir disso tudo
vou ter saudade do medo que eu tinha de não ter dinheiro amanhã
Um dia vou ser irmã da certeza
de comer, dormir e comprar disco todo dia
e ter galinha no quintal e viver bem
Um dia, meu bem
me verás vestida de ouro
e pensarás que vou a uma festa
A festa será aquela, esta de estar em casa sem tensão
sem terceira imundície
Um dia meu irmão te direi: Não te disse?:
E serei a negra mais feliz do Brasil
Não serei imbecil
Serei sábia  e sutil na riqueza
Eu que era ovelha negra da quadrilha
vou sustentar a família
com tanta beleza
Um dia vou pôr a mesa
que o mundo guardou para mim
Patroa e empregada do meu próprio festim!