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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Testemunha (Ana Maria Lopes)

Sou de mim mesma
vítima e assassino
invento tudo que amo
e desinventando
em seguida
deixo de amar

Mas amo o que crio
e criando em pleno cio
reinvento o grito
a primeira palavra
o engatinhar
o engatilhar
o último tiro

Respiro e disparo
o beijo que dói

Vítima e assassino.

domingo, 8 de setembro de 2013

Costura (Ana Maria Lopes)

As palavras estão aí
estão soltas
à espera
de que alguém as emende
como uma colcha de retalhos
Elas precisam de costura
sem linha sem agulha
apenas agudez
esperteza de juntar
clareza de enxergar

Escrever é colchear.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Pausa (Ana Maria Lopes)

Eu tenho na memória
a curva que seu braço
descreve
ao me envolver no abraço
O roçar da barba malfeita
que irrita meu rosto
e que aflita me faz em risos
antecipando o gozo
ao trançar as pernas
E nossos corpos
qual uma cruz
posta no leito
se desmancham
e se derretem
Sua célula é minha célula
o meu suor mata a sua sede
nossos líquidos nos regam
nossas vozes se calam
Vogais e consoantes
se fazem desnecessárias
E todo o silêncio em volta
volta em forma de beijos

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Ele (Ana Maria Lopes)

Ele veio do nada
e me convidou a dançar
e dancei
e dançamos
então ele me encheu de risos
e levou graça à minha vida

e ele me deu carinho
me deu seu colo
conversou conversas de dois
e nos transformou em casal

e mais que casal ficamos
porque nos embolamos
e já não sabíamos
quando começava um
e terminava o outro

assim ele me mostrou o mundo
e que além dele
podia haver amigos
podia se ser amantes

e me deu a certeza
de que também além da dor
havia uma mão
pronta à carícia
ávida por dividir
e assim somavam os dois

logo se foi percebendo
que a vida vivida
e o amor destinado
fazia de cada um
um cúmplice
um cumpra-se
um cálice
um álibi para dois algemados