Na história da poesia brasileira
Gregório, como um sátiro, desponta.
Dirceu canta Marília, que não conta.
Gonçalves Dias trepa na palmeira.
Rebelo é Zé, não tem eira nem beira.
Escravo, ao Castro Alves, vira afronta.
Bilac eleva e leva a lavra em conta.
Delfino é preso ao pé, mas mal o cheira.
Augustos são vanguarda: Alguém os siga!
Oswald e Mário apupam: Pau no apuro!
Drummond, Bandeira, ombreiam, bons de briga.
Cabral é cabra cru, cerebral, duro.
Se Piva quer viver na Grécia antiga,
Mattoso, em trevas, vive no futuro.
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sábado, 30 de novembro de 2013
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Soneto futebolístico (Glauco Mattoso - 1951)
Machismo é futebol e amor aos pés.
São machos adorando pés de macho,
e nesse mundo mágico me acho
em meio aos fãs de algum camisa dez.
Invejo os massagistas dos Pelés
nos lúdicos momentos de relaxo,
servindo-lhes de chanca e de capacho,
levando a língua ali, do chão no rés.
É lógico que um cego como eu
não pode convocar o titular
dum time brasileiro ou europeu.
Contento-me em chupar o polegar
do pé de quem ainda não venceu
sequer a mais local preliminar.
São machos adorando pés de macho,
e nesse mundo mágico me acho
em meio aos fãs de algum camisa dez.
Invejo os massagistas dos Pelés
nos lúdicos momentos de relaxo,
servindo-lhes de chanca e de capacho,
levando a língua ali, do chão no rés.
É lógico que um cego como eu
não pode convocar o titular
dum time brasileiro ou europeu.
Contento-me em chupar o polegar
do pé de quem ainda não venceu
sequer a mais local preliminar.
sexta-feira, 16 de março de 2012
Soneto 234 Confessional (Glauco Mattoso - 1951)
Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.
ainda odeio quem me tem odiado:
devolva agora aquilo que declara.
mas quem amei não volta, e a dor não sara.
não sobra nem a crença no passado.
palavra voa, escrito permanece,
garante o adágio vindo do latim.
escrito é que nem ódio, só envelhece.
se serve de consolo, seja assim:
amor nunca se esquece, é que nem prece. Tomara,
pois, que alguém reze por mim...
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.
ainda odeio quem me tem odiado:
devolva agora aquilo que declara.
mas quem amei não volta, e a dor não sara.
não sobra nem a crença no passado.
palavra voa, escrito permanece,
garante o adágio vindo do latim.
escrito é que nem ódio, só envelhece.
se serve de consolo, seja assim:
amor nunca se esquece, é que nem prece. Tomara,
pois, que alguém reze por mim...
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Soneto 426 Torresmista (Glauco Mattoso - 1951)
Não basta a ditadura que já dura
e vem a ditadura antigordura!
Saímos do regime militar,
caímos no regime do regime.
Censuram-nos até no paladar!
Trabalho, horário, imposto, compromisso.
Orgasmo não se tem como se quer.
Só sobra o bom do garfo e da colher,
e os nazis nariz metem até nisso.
Maldita seja a mídia, sempre a dar
Espaço à medicina que reprime!
Gestapo da "saúde" e "bem-estar"!
Resista! Coma! Abaixo a ditadura!
A luta tem um símbolo: FRITURA!
e vem a ditadura antigordura!
Saímos do regime militar,
caímos no regime do regime.
Censuram-nos até no paladar!
Trabalho, horário, imposto, compromisso.
Orgasmo não se tem como se quer.
Só sobra o bom do garfo e da colher,
e os nazis nariz metem até nisso.
Maldita seja a mídia, sempre a dar
Espaço à medicina que reprime!
Gestapo da "saúde" e "bem-estar"!
Resista! Coma! Abaixo a ditadura!
A luta tem um símbolo: FRITURA!
domingo, 1 de dezembro de 2013
Téquinico (Glauco Mattoso - 1951)
Reflete a inflexão do X no verso,
contada como sílaba. Assim quis.
Portanto, o som dum ‘ex’ vale ‘equis’
no ritmo brasileiro em que converso.
Da mesma forma, é ‘ritimo adiverso’,
mas nunca ‘rimo averso’ que se diz.
Se for no meio termo, como fiz,
às vezes um ‘submerso’ é ‘subimerso’.
A decisão é minha, soberano
que sou do meu soneto, como um rei.
Aqui não dita o crítico Fulano.
Aqui nunca confesso quando errei;
apenas justifico meu engano,
pois quanto mais pratico, menos sei.
contada como sílaba. Assim quis.
Portanto, o som dum ‘ex’ vale ‘equis’
no ritmo brasileiro em que converso.
Da mesma forma, é ‘ritimo adiverso’,
mas nunca ‘rimo averso’ que se diz.
Se for no meio termo, como fiz,
às vezes um ‘submerso’ é ‘subimerso’.
A decisão é minha, soberano
que sou do meu soneto, como um rei.
Aqui não dita o crítico Fulano.
Aqui nunca confesso quando errei;
apenas justifico meu engano,
pois quanto mais pratico, menos sei.
sábado, 27 de dezembro de 2014
Soneto rodador (Glauco Mattoso - 1951)
Palíndromo perfeito é o "oroboro",
a cobra que devora o próprio rabo.
Com esse talismã começo e acabo
um tema que dos bruxos é namoro.
Porém, como sou falto de decoro
e de ser pornográfico me gabo,
engulo meu caralho, até me enrabo
e rindo dessa dor gozo meu choro.
Assim sempre vivi, juntando extremos,
tirando da agonia meu proveito,
casando maus anjinhos com bons demos.
Erótico e autofágico é o conceito,
portanto, do "oroboro": eis como vemos
a cobra do palíndromo perfeito.
a cobra que devora o próprio rabo.
Com esse talismã começo e acabo
um tema que dos bruxos é namoro.
Porém, como sou falto de decoro
e de ser pornográfico me gabo,
engulo meu caralho, até me enrabo
e rindo dessa dor gozo meu choro.
Assim sempre vivi, juntando extremos,
tirando da agonia meu proveito,
casando maus anjinhos com bons demos.
Erótico e autofágico é o conceito,
portanto, do "oroboro": eis como vemos
a cobra do palíndromo perfeito.
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Advertência cautelosa [4146] (Glauco Mattoso - 1951)
Só conto o que é veridico, e cuidado
convem tomar com tudo que é verdade,
pois pode succeder que desagrade
ao sceptico leitor o que é contado.
Tambem é natural não ser do agrado
de algum leitor mendaz o que lhe invade
a alcova, a conjugal privacidade,
o circulo domestico, o passado.
Mas, como bom poeta, não me calo:
escuto, memorizo e em verso passo,
ainda que pisando alguem no callo.
Portanto, é bem possivel que, no espaço
dum unico soneto, si eu contal-o,
o causo escripto valha um calhamaço.
convem tomar com tudo que é verdade,
pois pode succeder que desagrade
ao sceptico leitor o que é contado.
Tambem é natural não ser do agrado
de algum leitor mendaz o que lhe invade
a alcova, a conjugal privacidade,
o circulo domestico, o passado.
Mas, como bom poeta, não me calo:
escuto, memorizo e em verso passo,
ainda que pisando alguem no callo.
Portanto, é bem possivel que, no espaço
dum unico soneto, si eu contal-o,
o causo escripto valha um calhamaço.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Soneto contrariado (Glauco Mattoso - 1951)
Por ser o cedo tarde e o tarde cedo;
por ser tarde a manhã e a noite dia;
por ser gostosa a dor, triste a alegria;
por serem ódio amor, coragem medo;
Se o plágio é mais invento que arremedo;
se exprime mais virtude o que vicia;
se nada vale tudo que valia;
se todos já conhecem o segredo;
Por ser duplipensar barroco a língua;
por menos ter aquele que mais quer;
se a falta excede e tanto abunda a míngua;
Por nunca estar o nexo onde estiver,
desdigo o que falei e a vida xingo-a
de morte, se a cegueira é luz qualquer.
por ser tarde a manhã e a noite dia;
por ser gostosa a dor, triste a alegria;
por serem ódio amor, coragem medo;
Se o plágio é mais invento que arremedo;
se exprime mais virtude o que vicia;
se nada vale tudo que valia;
se todos já conhecem o segredo;
Por ser duplipensar barroco a língua;
por menos ter aquele que mais quer;
se a falta excede e tanto abunda a míngua;
Por nunca estar o nexo onde estiver,
desdigo o que falei e a vida xingo-a
de morte, se a cegueira é luz qualquer.
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